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Impressões sobre Montevidéu

Do alto, se intui o frio, apesar de ser dezembro. Na chegada, o avião vai descendo pela infindável planície perfeitamente plana que caracteriza os pampas. Silos – muitos deles – e gado são visíveis do alto, nas regiões famosas pelo plantio do trigo e pela pecuária bovina. Porém, à medida que o viajante se aproxima de Montevidéu, percebe-se uma maior diversidade produtiva, com galpões de empresas, dutos, intrincadas arquiteturas metálicas que lembram a indústria petroquímica. A cidade se estende à margem do rio do Prata. É referência famosa nos livros de História, objeto de incontáveis querelas entre espanhóis e portugueses colonizadores. Da janela do avião não se vê a margem oposta do rio, território argentino: ele se confunde – com sua densa coloração de limo que, às vezes, assume um tom avermelhado, barrento, cor de tijolo – com as nuvens cinzas que encobrem a cidade com frequência. É dezembro, mas o frio é intenso. Do alto se veem parques, praças arborizadas, longas calles pontuadas …
Postagens recentes

Os trabalhadores da Salvador aristocrática

Eles começam a chegar aos antigos e aristocráticos bairros de Salvador nas primeiras horas da manhã. Invariavelmente desembarcam de ônibus cujos letreiros luminosos sinalizam origens longínquas: Pau da Lima, Mussurunga, Santa Mônica ou Fazenda Grande do Retiro. A afluência, porém, é maior do distante Subúrbio Ferroviário, com suas dezenas de comunidades carentes: Mirantes de Periperi, Paripe, Coutos, Fazenda Coutos, Lobato e os mais próximos: Marechal Rondon, Capelinha de São Caetano e Alto do Cabrito. Boa parte dos veículos traz o amarelo da frota que circula naquela região. Eles são os trabalhadores que ganham a vida nos bairros nobres de Salvador, labutando nos edifícios elegantes onde reside parte da elite local. São empregadas domésticas – o tipo mais comum naquelas levas que desembarcam a todo momento no início da manhã – faxineiras, copeiras, babás, cuidadoras de idosos: as mulheres predominam naquele universo. Entre os homens pontuam os porteiros, jardineiros, ascensoristas, ele…

O assassinato da vereadora e a incompetência do governo

Em junho de 1994 o Rio de Janeiro viveu um dos seus dias mais sangrentos até então: num intervalo de apenas 24 horas, 22 assassinatos foram contabilizados na Cidade Maravilhosa. Treze cadáveres resultaram de um único episódio: o assassinato do líder do tráfico no Complexo do Alemão, “Orlando Jogador” por um traficante rival, Ernaldo Pinto de Medeiros, o “Uê”. A emboscada – meticulosamente planejada – desestabilizou as relações de força do crime organizado e provocou uma escalada de violência que se estendeu pelos anos seguintes. Após as eleições presidenciais, em novembro daquele ano, anunciou-se com pompa uma operação do Exército no Rio de Janeiro, visando erradicar o crime organizado. Tudo não passou de encenação pós-eleitoral: durante vários dias foram conduzidas gigantescas blitze contra a população pobre – e honesta – dos morros, com resultados pífios. Apreenderam-se algumas poucas armas, quantidades desprezíveis de drogas e prenderam-se alguns acusados – no máximo, meros coadjuvan…

Certezas e incertezas da eleição na Bahia

Ao contrário das eleições presidenciais – mergulhadas num mar de incertezas e de candidaturas que, lá na frente, provavelmente não se confirmarão – o pleito estadual, que indicará o novo governador da Bahia, parece crivado de verdades insofismáveis. Pelo menos é o se percebe conversando com gente que circula pelos bastidores da política, simpatizantes das potenciais pré-candidaturas ou a gente simples nas ruas, que se mantêm atenta ao noticiário político. Entre essas verdades está a de que o governador Rui Costa (PT) é amplamente favorito à reeleição. Há quem, sequer, pestaneje diante dessa certeza. A propalada aprovação da população, o amplo leque de alianças que dá sustentação ao governo e a capilaridade dos movimentos sociais que apoiam a candidatura petista referendam essas certezas. Isso apesar do cenário nacional bastante nebuloso. As incertezas que ainda pesam sobre a oposição potencializam esse otimismo. O prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), ainda não confirmou a disposição de…

Lembranças do Mercado Agrícola de Montevidéu

Mercado Agricola de Montevideo. À primeira vista, para um eventual desavisado, o nome remete a um desses entrepostos maltratados, cujos equipamentos se degradam pelo uso intenso, com lixo espalhado pelas vias e se acumulando pelos cantos, mau cheiro, sujeira e aspecto de abandono. Pelas cercanias – projetará uma mente mais criativa – pontuam bêbados que dormem ou vociferam, vagabundos que proseiam em magotes e ladrões que espreitam, aguardando a oportunidade conveniente. Nada mais falso: o Mercado Agrícola da capital uruguaia é um equipamento que associa modernidade e tradição. Por um lado, expõe produtos de qualidade, manuseados por trabalhadores qualificados, alojados em boxes bem-conservados e que atendem a todas as exigências da higiene e do asseio. Tudo temperado pela tradição: o mercado funciona em instalações construídas há mais de 100 anos – precisamente 1913 –, mas reformadas recentemente, estando muito bem conservadas. Quem envereda por um dos portões – é mais impactante chega…

Apesar dos relâmpagos, calor segue intenso

Albert Camus estreou na literatura mundial com o curto – mas magistral – romance “O Estrangeiro”. Nele, a personagem principal, Meursault, transita por Argel, a portuária capital da Argélia. Leva uma vida medíocre: trabalha num escritório comercial, mora só, folga aos domingos, tem uma amante, a mãe morre causando-lhe nenhuma comoção. O tédio e o calor perpassam todo o curto – mas denso – romance. A vida da personagem emerge da rotina mesquinha quando ele mata um árabe na praia, numa trama que envolvia um amigo. Meursault estarrece todo mundo quando declara, no tribunal, que o calor e a luminosidade interferiram na sua decisão de apertar o gatilho várias vezes contra o árabe, que ele conhecia só de vista. Não há, ali, uma causa aparente para o ato extremo: o calor influenciou o gesto radical, encarado pela personagem como um gesto banal. Aqui pela Feira de Santana – aonde, inclusive, se mata em escala industrial – ninguém atribuiu, ainda, nenhum ato do gênero aos dias escaldantes e às n…

Calor escaldante influi nos hábitos do feirense

As temperaturas crescentes, registradas praticamente todos os anos, já dão sinais de que começam a influenciar os hábitos da população feirense. Isso principalmente ao longo do verão. Segunda-feira (05) os termômetros registraram inacreditáveis 38 graus; na terça-feira, a máxima alcançou impressionantes 36 graus. O problema é que as temperaturas mínimas também não são nada refrescantes: nos últimos dias, vêm oscilando entre 28 e 29 graus, o que não permite sequer aquela aragem agradável da madrugada. Quem sai às ruas sente a pele arder, ressecada, sobretudo a partir dos finais de manhã e até depois do meio da tarde. O horizonte próximo – mesmo o fim da rua – tremula em ondas de calor. E a luminosidade intensa ofusca a vista, impõe óculos e boné para os mais sensíveis. As árvores escassas, nessas canículas intensas, projetam sombras mesquinhas, sobretudo ao meio-dia. A trégua que oferecerem é precária: venta pouco e o bafo quente, ardido, dilui o efeito do resguardo passageiro do sol. O …